Compreendendo João 14:28
A carta aos Hebreus, no capítulo 2, versículo 9, diz que Cristo foi feito um pouco inferior aos anjos, por causa da paixão da morte. Filipenses 2:7 também afirma que Jesus se esvaziou de Sua glória, assumindo a forma de homem. Isaías 7:14 o chama de Emanuel , cujo sentido literal é Deus no barro, segundo os eruditos da língua hebraica. (Porém, em nossas versões, encontramos a expressão Deus conosco; pois a ideia contida na palavra, bem pode ser traduzida como Deus no homem ou entre os homens, ou mais simplesmente Deus conosco; uma vez que o barro representa o material de que fomos constituídos).
A expressão “esvaziou-se de Sua glória” não deve, de nenhum modo, nos causar estranheza; isto porque, mesmo no antigo testamento, é possível observar a presença do Senhor com aspectos humanos, que lembram, de alguma forma, uma espécie de “esvaziamento”, tal qual o acontecido na visita aos patriarcas Abraão e Jacó, respectivamente (Gênesis 18:1-33 e Gênesis 32:24-30). E tendo em vista a necessidade de a criatura ter um contato mais íntimo com o Seu Criador, Este, por Sua vez, manifestou-se a nós, de tal maneira que pudéssemos nos relacionar com Ele. Sendo esse tipo de relacionamento conhecido por antropomorfia, isto é, forma humana.
Ora, sabemos que ninguém jamais poderia ter um contato com o Todo-Poderoso, na Sua essência. Eis o motivo por que o Senhor se fez homem e viveu entre nós. Porém, como isso aconteceu não sabemos explicar; pois a mente finita não pode alcançar o Infinito. *Além disso, afirmamos que quando Deus se fez homem, Ele não deixou de ser Deus para, então se tornar homem. Ele continuou a ser o mesmo Deus; pois para Ele não há impossíveis. Assim sendo, de acordo com Isaías 7:14, a palavra “Emanuel” sugere que o próprio Deus é que, de fato, viveu entre os homens, sem necessidade de criar um novo ser a quem pudesse chamar de filho! A propósito, a palavra filho, quando aplicada ao Senhor Jesus não tem nada a ver com uma pessoa cuja existência é posterior a de outra, tal qual acontece com os seres humanos.
Com relação às palavras “o Pai é maior do que Eu”, ditas pelo Senhor Jesus, podemos afirmar o seguinte: Cristo, sem dúvida, viveu aqui na terra como um ser humano qualquer. E, deste modo menor que os anjos, tal como nós o somos (Salmos 8:4,5 e Hebreus 2:9). Ademais, era preciso que Ele morresse pela humanidade. Eis um outro motivo pelo qual Jesus se fez homem, visto que não poderia viver entre nós, nem ainda como anjo; pois o Senhor tinha que morrer por nós, como já dissemos. E, sem dúvida, a morte é uma experiência peculiar à natureza humana e não à dos seres angelicais. Portanto, se usarmos um pouco de bom senso, e considerarmos a profundidade das palavras do Mestre, tais como em João 2:19, 11:4 e Mateus 16:18, veremos que a passagem em questão não contradiz as que O consideram como sendo o próprio Deus. Assim, poderíamos construir a frase de João 14:28 com os seguintes termos: “Os anjos são maiores do que Eu”. Isto porque Jesus poderia mesmo estar se referindo ao *homem-Jesus; neste caso, inferior aos anjos (Hebreus 2:9).
E, se como homem, Cristo era inferior aos anjos, não é necessário dizer mais nada com relação às suas Palavras no texto em análise.
Finalizando lembremos que o referido texto não serve de argumento para negar a deidade do Senhor Jesus, pois não há contextos que o justifiquem.
Que Deus nos ajude a compreender Sua palavra!
*Observação¹: O modo por que Deus se fez homem, e não deixou de ser o próprio Deus, pode ser definido com a seguinte comparação (embora se diga que toda comparação manca): o sol nascente e o poente são o mesmo sol de meio-dia, todavia este último quase não conseguimos encarar. A água é uma só, mas é encontrada em três estados diferentes, ou seja, sólido, líquido e gasoso. E mais: bebemos água fresca; porém a que está em ebulição não podemos beber, embora seja a mesma água, com a sua fórmula H²O (dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio).
*Observação²: Um estudo bem atento das Escrituras permite compreender que Jesus possuía uma natureza humana e outra divina. Então, é fácil deduzir que, algumas vezes Ele se referia a Si mesmo como homem (João 14:28); e outras vezes, como sendo o próprio Deus (João 14:8,9).